15 setembro 2012

Bandeirantes

Bandeirantes: destruir para dominar

Os bandeirantes descobriram terras que nenhum homem branco tinha visto. Caçaram índios e cometeram o maior assassinato em massa do país

Reportagem Reinaldo José Lopes e Luís Augusto | 01/04/2007 

Pintura de Benedito Calixto. Óleo sobre tela, 140 x 100 cm
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Domingos Jorge Velho, um dos mais famosos bandeirantes da História do Brasil, pintura do século XVIII

Filhos de portugueses com mulheres da terra, os bandeirantes eram muito parecidos com os índios. Andavam por aí descalços e com roupas para lá de estropiadas – e não com roupas e botas de couro limpinhas, como muita gente acredita. Durante 200 anos, entre os séculos 17 e 18, esses homens, saídos principalmente de São Paulo, se embrenharam no mato para buscar índios, que eles capturavam para usar em suas próprias fazendas ou vender como escravos. Graças a eles, o Brasil ficou muito maior do que deveria ser, já que o Tratado de Tordesilhas, assinado entre Espanha e Portugal em 1494, dava aos portugueses só o nosso litoral. Os bandeirantes aumentaram o tamanho do nosso país, mas também provocaram um rombo de população. Eles mataram e prenderam tantos índios que o nosso interior ficou bem mais vazio.

Tipos de bandeirantes.

 O primeiro bandeirante da história é o português João Ramalho, que, ainda no começo do século 16, fez amizade com a poderosa tribo dos tupiniquins. Esperto e violento, esse pioneiro tinha várias esposas e uma multidão de filhos. Por um lado, foi ele quem garantiu o apoio dos índios para fundar a cidade de São Paulo. Por outro, sua aliança com os tibiriçás provocou o fim de outras tribos, como os tupinambás. Quando o rei de Portugal estimulou uma parceria com os tupinambás, um processo parecido aconteceu no interior da província.
Fundação de Sorocaba, do artista Ettore Marangoni
O principal objetivo dos bandeirantes era aprisionar indígenas para escravizá-los.

Com isso, São Paulo ficou sem escravos fáceis de caçar. Foi então que começaram a surgir, para valer, os grupos de bandeirantes, que procuravam os índios onde quer que eles estivessem. Sempre descalços, os bandeirantes usavam arco e flecha, espadas e armas de fogo. Tinham armaduras de couro de anta e camisas de algodão cru. Eles começaram pelo Sul do Brasil. Em 1628, Antônio Raposo Tavares liderou uma expedição contra as regiões onde os índios guaranis viviam pacificamente com os padres jesuítas – as chamadas Missões. Quem resistia aos ataques morria na hora, e os reféns muito idosos eram largados no meio do caminho de volta. Logo os guaranis eram a mão-de-obra mais usada na capital paulista.
Quando os guaranis ficaram raros e difíceis de prender, os bandeirantes foram para o Planalto Central. Mas ali os índios estavam prontos para a luta. Veja o caso dos guaicurus, no Pantanal. Em 1720, surgiram boatos de que a região de Cuiabá tinha ouro. Algumas levas de bandeirantes correram para lá, mas nunca conseguiram dominar a área por causa dessa tribo poderosa.
Acampamento de bandeirantes.


Mestres da cavalaria
Não foram só os paulistas que apanharam dos índios. Durante 250 anos, espanhóis, portugueses e paraguaios recuaram, ou então tentaram negociar. Bons guerreiros e homens espertos, eles formaram um pequeno império naquela região. A cada tentativa de invasão, aproveitavam para aprender alguma coisa. Quando o conquistador espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca chegou lá, em 1542, eles descobriram que existia um bicho chamado cavalo. Ficaram assustados, mas logo aprenderam a manejar o animal. Eram tão bons nisso que montavam sem cela. Lá pelo ano 1700 tinham mais de 8 mil cavalos. Em 1778, quando os portugueses partiram para a briga de novo, os índios ofereceram uma trégua e entregaram suas mulheres aos inimigos.
À noite, enquanto os europeus se divertiam com as moças, eles atacaram e mataram todos que viram pela frente. Os guaicurus existem até hoje – seus descendentes são os kadiwéus, que vivem no Mato Grosso do Sul. Bom, voltando para a metade do século 17. Como a situação estava difícil no Centro-Oeste, o jeito foi continuar indo para o norte. Até que, depois de uma viagem de três anos, o grupo de Raposo Tavares chegou a Belém do Pará, em 1651. Em 1671, quando os índios tapuias se rebelaram contra os donos dos engenhos de açúcar do Nordeste, os bandeirantes foram contratados para agir. Nessa época, Domingos Jorge Velho ficou muito famoso; depois ele seria um dos responsáveis pela derrota de Zumbi e seu Quilombo dos Palmares. Foi também nessa época que, pela primeira vez, alguém usou a expressão “paulista” para se referir às pessoas que vinham de São Paulo.

 Mapa das expedições bandeirantes.

Alguns anos depois, as operações de caça – conhecidas como bandeiras – ganharam uma nova motivação: procurar ouro. Em 1674, Fernão Dias Paes saiu de Guaratinguetá, no vale do Paraíba, em São Paulo, e se tornou o primeiro a chegar à região que logo seria chamada de Minas Gerais. Ele morreu sem achar metais preciosos, mas outros continuaram a procura. Em 1720, Bartolomeu Bueno da Silva e seu filho ocuparam o interior de Goiás enganando os índios. Eles diziam que tinham o poder de fazer a água pegar fogo. Levantavam uma garrafa de cachaça, acendiam um fósforo... e o cacique se rendia.
Com o extermínio dos índios, o país passou a usar os escravos da África e os bandeirantes voltaram para suas terras, para viver como fazendeiros. O Brasil tinha ficado bem maior, mas pagou um preço alto: a vida de milhares de índios.


Família real no Brasil

Brasil: milagre do crescimento com a família real portuguesa

A simples presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro já promovia o desenvolvimento do Brasil. Mas abriram-se estradas, surgiram fábricas, criou-se um banco...

André Luis Mansur | 01/03/2008

Era um miserê de dar dó o Brasil que a família real conheceu em janeiro de 1808, ao desembarcar em Salvador. Subdesenvolvida e sem a mínima infra-estrutura, a colônia não tinha mudado muito desde que as primeiras feitorias foram instaladas, no século 16. O território era imenso, mas não passava de uma fazenda extrativista. Daqui, Portugal tirava quase todo o seu sustento.
Mesmo para a corte parasita e cheia de corruptos que dom João trouxe a tiracolo, o Brasil não parecia digno de se tornar a sede da monarquia portuguesa. Era preciso mudar o estado das coisas, e rápido. Afinal, o príncipe regente tinha chegado para ficar, não tinha a menor idéia de quando poderia voltar à Europa. Suas prioridades ao pisar na colônia só poderiam ser as óbvias: criar condições de vida para a corte e mecanismos que permitissem governar todo o império a partir de sua nova capital, o Rio de Janeiro.

A família real desembarcou depois de uma viagem difícil pelo Oceano Atlântico.


FIM DO PACTO
Logo de cara, uma semana depois de desembarcar em Salvador, dom João abriu os portos brasileiros às nações amigas. Era o fim do Pacto Colonial – o Brasil estava liberado para manter comércio com outros países, sem a interferência portuguesa.
Em março de 1808, já instalado no Rio de Janeiro, o príncipe regente liberaria também a criação de fábricas, proibida desde 1785. Quatro anos mais tarde, uma pequena siderúrgica já estava funcionando na colônia. Em 1820, outra seria inaugurada. “Era um embrião de indústria, que enfrentava a competição de produtos baratos que vinham da Inglaterra. Mas foi o primeiro passo”, diz Renato Marcondes, professor de História Econômica da Universidade de São Paulo (USP).
Dom João também deu um jeito na Justiça brasileira. Depois de 300 anos com um sistema judiciário bastante limitado, foi instalada na colônia a Casa de Suplicação – uma espécie de Supremo Tribunal do império, instância mais alta da Justiça portuguesa. Dali em diante, qualquer disputa judicial, por mais poderosos que fossem os envolvidos, poderia ser resolvida na própria colônia.
Outra invenção importante do príncipe regente foi o Banco do Brasil. Essa, porém, não deu tão certo quanto as outras, pelo menos em seus primeiros anos de vida. Embora tenha lançado por aqui as fundações de um sistema financeiro, o banco era fraco e ninguém acreditava muito nele. Funcionava apenas como gerenciador de depósitos e, principalmente, como casa da moeda. O dinheiro emitido não tinha lastro. Prestava-se, sobretudo, a financiar os gastos do governo e da corte. A instituição era tão desacreditada, que tudo custava mais caro se o pagamento fosse em dinheiro. Quando dom João voltou para Portugal, em 1821, levando toda a grana dos cofres, o Banco do Brasil simplesmente quebrou.

Chegada da família real, tela de Cândido Portinari.


SIMPLES PRESENÇA
Ainda que nada tivesse feito pela economia brasileira, a simples presença da corte no Rio de Janeiro já promovia o desenvolvimento de toda a colônia. O aumento da demanda por todo tipo de insumo, provocada pelos 15 mil portugueses que subitamente se instalaram na cidade, fazia o comércio girar como nunca. “A necessidade de alimentos levou a um crescimento muito grande na produção em várias regiões”, diz Marcondes. “No ano de 1806, o Vale do Paraíba, em São Paulo, enviou 7,7 mil cabeças de gado para o abate no Rio de Janeiro. Em 1810, esse número havia saltado para 13,5 mil cabeças.”
A abertura de estradas, que também era proibida até a chegada da corte, agora estava autorizada. Aquelas que já existiam foram melhoradas. Mas eram poucas. A nova sede do império precisava de mais. Elas foram abertas principalmente nas regiões que hoje correspondem a Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. E isso tem tudo a ver com o fato de, hoje, a região Sudeste ser a mais desenvolvida do país. “Antes, abrir estradas era proibido porque a Coroa temia o contrabando de ouro e diamantes”, explica a professora Luciana Lopes, do Núcleo de Estudos de Demografia Histórica da USP.
O desafio de abastecer a capital do império fez florescer o comércio de cabotagem, que estimulou o desenvolvimento de várias cidades costeiras. Produtos de lugares distantes – como charque do Rio Grande do Sul e madeira da Bahia – chegavam ao Rio de Janeiro pelo mar. “A vinda da família real não foi exatamente o início do desenvolvimento econômico, pois já havia alguma atividade na colônia”, diz Luciana. “Mas funcionou como um grande catalisador, acelerando as transformações.” Esse desenvolvimento acelerado da colônia acabaria se revelando um tiro no pé de dom João. Em pouco tempo, o Brasil começaria a sentir-se totalmente preparado para se aventurar numa “carreira solo”.

Dia do Fico

Dia do Fico 
O Dia do Fico ocorreu em 9 de janeiro de 1822. Esta data ficou conhecida por este nome, pois D.Pedro I, então príncipe regente do Brasil, não acatou ordens das Cortes Portuguesas para que deixasse imediatamente o Brasil, retornando para Portugal. 
As Cortes de Portugal estavam preocupadas com os movimentos que ocorriam no Brasil em direção à emancipação política. Viam no retorno de D.Pedro uma maneira de recolonizar o Brasil, enfraquecendo as idéias de independência.
Os liberais do Partido Brasileiro recolheram cerca de 8 mil assinaturas, exigindo a permanência de D.Pedro no Brasil. Diante deste contexto, D. Pedro declarou: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico". Então esta data (9 de janeiro de 1822) passou a ser conhecida como o Dia do Fico.
Este fato histórico foi importante, pois fortaleceu a posição brasileira de buscar a independência, distanciando cada vez mais da influência portuguesa.