26 outubro 2018

Lanceiros Negros - Guerra dos Farrapos

Estive pesquisando sobre as rebeliões do período regencial e me deparei com uma informação ótima, a respeito da participação dos negros na Guerra dos Farrapos.


Tomei a liberdade de trazer aqui o texto do historiador Hemerson Ferreira. 
Seu texto está maravilhoso e explicado de maneira tão clara, que não há o que eu possa adicionar. 
Inseri as imagens

Lanceiros Negros

Cabeça de lanceiro negro, do pintor gaúcho Vasco Machado

Durante a chamada Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul (1835-45), quando um homem livre era chamado a servir tanto nas forças rebeldes quanto nas imperiais, podia enviar em seu lugar (ou no lugar de um filho seu) um de seus trabalhadores escravizados. Em alguns casos, o alforriavam e alistavam. Também foi prática comum buscar atrair ou tomar cativos das tropas inimigas, trazendo-os para seu lado. O primeiro exército a utilizar negros escravizados como soldados foram os imperiais. Precisando também formar uma infantaria e sobretudo preferindo enviá-los como bucha-de-canhão, morrendo na frente em seu lugar, farrapos também os alistaram: eram os famosos Lanceiros Negros. Ambos, farrapos ou imperiais, prometiam também liberdade aqueles que desertassem das tropas rivais, mudando de lado.

A maioria dos cativos que combateu nesta guerra foi obrigada a fazê-lo diante das condições impostas. Por outro lado, apesar da guerra ser horrível e violenta, era até preferível a vida militar, com seus esporádicos combates, do que as agruras diárias da escravidão. A promessa de liberdade após o fim da luta certamente pode ter influenciado em muito o recrutamento daqueles homens. Uma promessa, aliás e como veremos, jamais cumprida.

Não havia igualdade nas tropas farroupilhas, muito menos democracia racial. Negros e brancos marchavam, comiam, dormiam, lutavam e morriam separadamente. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos, e jamais um negro chegou a um posto significante, mesmo que intermediário, de comando. Aos Lanceiros Negros era vedado o uso de espadas e armas de fogo de grande porte. Não lutavam a cavalo, como costumam mostrar nos filmes e mini-séries de TV, mas sim a pé, pois havia o risco de se rebelar ou fugir. Sua arma principal era a grande lança de madeira que lhes deu nome e fama, algumas facas, facões, pequenas garruchas, os pés descalços, a bravura e o anseio pela liberdade prometida.

Lanceiro negro, do pintor Juan Manuel Blanes

Seria anacronismo se quiséssemos que líderes farroupilhas tivessem um comportamento ou posições políticas avançadas e assim diferentes das existentes em seu tempo, mas defesa da Abolição da escravidão era bem conhecida e nada alienígena na época. Uma Abolição começou a ser decretada em Portugal em 1767, proibindo que fossem enviados para o reino mais cativos vindos da África, e em 1773 foi decretada uma Lei do Ventre Livre naquele país. Na Dinamarca, isso se deu em 1792. Na França, em 1794 (ainda que Napoleão tenha tentado restabelecer a escravidão no Haiti em 1802). No México, uma primeira tentativa de Abolição foi feita em 1810, mas foi finalmente vitoriosa em 1829. Bolívar libertou cativos em 1816-7, durante suas lutas por independência, e finalmente aboliu a escravatura em 1821. A Inglaterra, que havia findado a escravidão pouco antes da Revolta dos Farrapos, pressionava o Brasil pelo fim do tráfico negreiro desde 1808. Willian Wilbeforce, um dos maiores abolicionistas da história, morreu em 1833, ou seja, dois anos antes da guerra no Sul do Brasil. Farrapos, portanto, conheciam, sim, e muito bem o abolicionismo.

Entretanto,os principais chefes farrapos, Bento Gonçalves, Canabarro, Gomes Jardim e até Netto, dentre outros, eram todos ferrenhos escravistas. Quando aprisionado e enviado para a Corte no Rio de Janeiro, Bento Gonçalves teve o direito de levar consigo um de seus cativos para lhe servir. Ao morrer, o mais conhecido líder farroupilha deixou terras, gado e quase cinqüenta trabalhadores escravizados de herança aos seus familiares. Bem diferente do que fizera Artigas no Uruguai anos antes, os farrapos jamais propuseram uma reforma agrária ou mesmo uma distribuição de terras entre seus soldados, mesmo os brancos pobres, que dirá os negros. A defesa da escravidão era tão clara entre os chefes farrapos a ponto deles jamais sequer terem mencionado o fim do tráfico negreiro.

Ao fim da guerra e já quase totalmente derrotados, os farrapos incluíram entre suas exigências para o Império o cumprimento da promessa de liberdade que haviam feitos aos Lanceiros (principalmente porque temiam que eles formassem uma guerrilha negra na província já que a quebra da promessa os faria se rebelar ou fugir para o Uruguai, destino comum de diversos cativos fugitivos na época). Queriam entregar-se ao Império, acabar a guerra, voltar à normalidade, mas tinham os Lanceiros e a promessa que lhes haviam feito, e o Império, escravista até a medula, não queria cumprir essa parte do acordo.

Que fazer então? A questão foi resolvida na madrugada de 14 de novembro de 1844, quando o general farrapo David Canabarro entregou seus Lanceiros desarmados ao inimigo, tudo previamente combinado com Caxias. E no serro de Porongos, hoje região de Pinheiro Machado (interior do Rio Grande do Sul), foi dizimada quase toda a infantaria negra, enterrando de vez a preocupação dos farrapos e acelerando assim a paz com o Império. A instrução de Caxias a um de seus comandados foi clara e objetiva: a batalha teria que ser conduzida de forma tal que poupar apenas e dentro do possível o sangue de brasileiros (e o negro era então tratado como africano, mesmo que já nascido no Brasil).

Lanceiro negro, do canal Negras Melodias, do facebook

Alguns historiadores apologistas ou folcloristas de CTGs consideraram aquela traição como Surpresa, já que pela primeira vez que o então vigilante Davi Canabarro teria sido surpreendido pelo inimigo. Conversa fiada! Enquanto dispôs suas tropas negras de tal maneira que ficassem desarmadas e descobertas, algo que até então nunca havia feito, Canabarro se encontrava bem longe e seguro do local, nos braços de Papagaia, alcunha de uma amante sua.

Após o combate, um relato oficial avisou a Caxias que pelo menos 80% dos corpos caídos no campo de Porongos eram de homens negros. Calcula-se que, nos últimos anos daquela conflito, os farrapos ao todo somavam uns cinco mil homens, sendo que algo em torno de mil eram Lanceiros Negros. Após o Massacre de Porongos, porém, restaram apenas uns 120 deles, feridos, alguns mutilados, e que foram primeiramente enviados para uma prisão no centro do país e depois dispersados para outras províncias, ainda mantidos como cativos.

Feito isso, deu-se a chamada rendição e paz do Poncho Verde, onde senhores escravistas dos dois lados trocaram abraços e promessas de lealdade e, logo depois, marcharam juntos e sob a mesma bandeira imperial contra o Uruguai, Argentina e Paraguai.

Bibliografia

FACHEL, José Plínio Guimarães. Revolução Farroupilha. Pelotas: EGUFPEL, 2002.

FERREIRA, Hemerson. Da Revolta à Semana Farroupilha: entre tradição e a história. http://prod.midiaindependente.org/…/bl…/2009/08/451359.shtml

FLORES, Moacyr & FLORES, Hilda Agnes. Rio Grande do Sul: aspectos da Revolução de 1893. Porto Alegre: Martins-Livreiro, 1993.

GOLIN, Tau. Bento Gonçalves, o herói ladrão. Santa Maria: LGR, 1983.

LEITMAN, Spencer. Raízes sócioeconómicas da Guerra dos Farrapos: um capítulo da história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

MAESTRI, Mário. "O negro escravizado e a Revolução Farroupilha". In: O escravo gaúcho: resistência e trabalho. Porto Alegre: UFRGS, 1993, pp76-82.

21 agosto 2017

Era Vargas - Canal História em Minutos

Olá

No ano de 2016, meus alunos e eu tivemos a ideia de fazer um canal no Youtube, para postar os vídeos realizados nas minhas aulas. Devido às inúmeras correrias da vida docente, o canal só conseguiu ir ao ar nesse ano.
Mas com todo carinho e dedicação, aos pouquinhos ele está ganhando corpo. Nele eu vou colocar os vídeos feitos por meus alunos, a respeito dos assuntos estudados e também vou postar os vídeos que edito especialmente para ajudar a estudar.

Nesse artigo, deixo os links dos vídeos sobre a Era Vargas.
Lembrando que esse período tão importante da nossa História merece documentários inteiros, sendo que foi feito até um longa metragem sobre os últimos anos da vida de Getúlio Vargas. 
Portanto não pretendo em vídeos curtos de 5 minutos esgotar todo o assunto. Abordo o mais importante, para ajudar no estudo.

Espero que gostem.
Bom estudo

Abraços da prof

26 junho 2017

Império Romano (28 a.C. - 476 d.C.)

Esse é um resumo, especialmente para ajudar no estudo dos meus alunos. Talvez eu o amplie no futuro... talvez. Algumas pessoas reclamaram do resumo completo com todos os períodos da História da Roma Antiga. Então, aqui vai “separadinho” por períodos.
Não tenho a pretensão de esgotar o assunto nem estão todos os aspectos abordados aqui, se o que você busca não está contemplado, lembre que esse é um blog, não um compêndio de PDFs completos.

Se você quiser ler o resumo com todos os 3 períodos da História de Roma Antiga clique aqui

Bandeira do Império Romano
http://www.simbolos.net.br/simbolos-romanos/

Império Romano (28 a.C. - 476 d.C.)

O período imperial não traz grandes mudanças estruturais logo de início. O primeiro imperador, Otávio Augusto inaugura um período longo de prosperidade e conquistas, denominado de Paz Romana. A partir dele, os imperadores passam a governar de forma vitalícia e o cargo não é necessariamente hereditário, embora muitos imperadores deixaram os cargos para seus filhos. O imperador indicava quem deveria ser seu sucessor. 

Paz Romana (Pax Romana) 

A Pax Romana, em latim "Paz Romana", é a denominação do longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, iniciado pelo imperador Otávio Augusto em 28 a. C. e que durou até a morte do imperador Marco Aurélio, em 180 d. C. 

Nesse período a população romana viveu protegida do seu maior medo, os povos "bárbaros". Sim, os romanos já os conheciam. Júlio César lutou na Gália para dominá-los, havia também os germânicos e os temidos hunos. Povos que viviam nos limites do território romano e que se não fossem vencidos, seriam um grande incômodo. 

Joaquin Fênix, como imperador Cômodo, no filme Gladiador
www.geralforum.com

Pax Romana era uma expressão já usada na época, possuindo um sentido de segurança, ordem e progresso para todos os povos dominados por Roma. Otávio Augusto ao inserir essa estratégia garantia empregabilidade para funcionários nas diversas províncias do extenso território, além de guarnecer as províncias com efetivo militar constante. Garantindo assim que todo cidadão romano, ou uma boa parcela, teria emprego. Devemos lembrar que o aumento territorial trouxe problemas pois o aumento de escravos garantiu que a mão de obra livre praticamente deixasse de existir, a não ser em postos administrativos e no exército.

Império Romano na época de Trajano - 117d.C.
https://commons.wikimedia.org/wiki/
File:Roman_Empire_Trajan_117AD.png

Esse efetivo militar, ao se inserir nas diversas e longínquas províncias, além de garantir a paz, garantia também a romanização dessas regiões - eram regiões com povos, línguas e costumes diferentes, portanto as tensões, ameaças e focos de revoltas eram constantes. a presença dos soldados mantinha as condições de tranquilidade e paz, segurança e ordem pública. Os soldados construíam aquedutos, estradas, edifícios administrativos, além de servirem a um código profissional rígido de disciplina e organização, que serviam como exemplo para os povos submetidos. Era uma paz armada e apenas possível com a presença das legiões, mas era a única forma de atingir uma harmonia mínima e foi devido à presença militar que a presença romana se difundiu.

Cristianismo 

Na província da Palestina havia, até o século Ia.C., única religião monoteísta do Império, a judaica. O rigor monoteísta do judaísmo colocava dificuldades à política de tolerância religiosa romana. O povo de Israel e de Judá estavam constantemente se revoltando contra a dominação romana, o que causava problemas para os romanos. Embora, a religião judaica fosse considerada legítima conflitos políticos e religiosos tornaram-se irreconciliáveis fazendo com que os romanos demonstrassem todo seu poder bélico contra o reino de Israel, saqueando a cidade de Jerusalém, destruindo o templo da cidade e dispersando o povo, no episódio denominado de Diáspora dos hebreus, ocorrida no ano de 70 d. C. 
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o-cristianismo-surgimento-caracteristicas-e-conflito-estado-x-igreja.jpg

A mesma tolerância não ocorreu com uma outra religião monoteísta surgida também na Palestina e que teve os seguidores perseguidos, pois seu líder e fundador foi crucificado. O Cristianismo surgiu como uma religião proibida.

O cristianismo surgiu na província da Judeia, no século I d.C., enquanto seita religiosa judaica. A religião expandiu-se gradualmente até Jerusalém, estabelecendo inicialmente centros importantes em Antioquia e Alexandria, e a partir daí por todo o império. As perseguições oficiais foram muito poucas e esporádicas e a maior parte dos martírios ocorreu por iniciativa de autoridades locais. 

Durante o início do século IV, Constantino tornou-se o primeiro imperador a converter-se ao cristianismo, colocando fim às perseguições, com o Édito de Tolerância. O imperador Juliano realizou uma breve tentativa de reavivar as religiões tradicionais e de reafirmar o estatuto especial do judaísmo. No entanto, em 391 e durante o governo de Teodósio, o cristianismo tornou-se a religião oficial do império, excluindo todas as outras, com o Édito de Milão. 

A partir do século II, os "Padres da Igreja" também chamados de "Pais da Igreja", bispos das principais cidades do Império, se reuniam, para organizar os dogmas oficiais e começaram a condenar, adaptar ou adotar as restantes práticas religiosas, denominando-as coletivamente por "pagãs". 

Ao mesmo tempo, foram rejeitados apelos à tolerância religiosa por parte de tradicionalistas e o monoteísmo cristão tornou-se uma das características do domínio imperial. Todos os hereges (aqueles que estavam um pouco fora do dogma oficial) e não cristãos estavam sujeitos a ser perseguidos ou excluídos da vida pública. No entanto, as práticas cristãs foram influenciadas por grande parte da hierarquia religiosa romana e por muitos aspetos dos rituais romanos, e muitas destas práticas sobrevivem ainda através de festivais e tradições locais cristãs.

Diocleciano e Constantino 

O imperador Diocleciano (reinado de 284 d.C. – 305 d. C.) adotou o título domine (mestre ou lorde), assumindo um império com uma postura semelhante a uma monarquia absoluta que se prolongaria de 284 até à queda do Império Romano do Ocidente em 476. Diocleciano impediu que o império entrasse em colapso. Durante seu reinado, o cristianismo foi duramente perseguido. 

Constantino
http://www.istockphoto.com/pt/fotos/imperador-constantino?
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phrase=imperador%20constantino
O governo de Diocleciano dividiu o império numa Tetrarquia de quatro regiões, cada uma governada por um imperador distinto. Em 313, a tetrarquia entrou em colapso, vários imperadores se sucederam em uma série de guerras de sucessão. Ao final dessas guerras, Constantino (reinado de 306–337) emergiu como único imperador e o primeiro a converter-se ao cristianismo, estabelecendo Constantinopla como capital do Império do Oriente. Ao longo das dinastias constantina e valentiniana, o império encontrava-se dividido numa metade ocidental e outra oriental, sendo o poder partilhado por Roma e por Constantinopla. A sucessão de imperadores cristãos foi brevemente interrompida por Juliano (reinado de 361–363), que tentou restaurar as religiões romana e helenística. Teodósio I (reinado de 378–395), o último imperador a governar o império oriental e ocidental, morreu em 395, após ter decretado o cristianismo a religião oficial do império, com o Édito de Milão.
Divisão do Império
https://pt.wikipedia.org/wiki/
Ficheiro:Theodosius_I%27s_empire.png

Fragmentação e declínio 

O império Romano estava sofrendo com os povos considerados "bárbaros", germânicos, gauleses, celtas, e o líder dos hunos - o mais notável dos quais Átila, o Huno (reinado de 434–453).

Átila, o Huno. Capa do filme de 2001
http://filmes.film-cine.com/atila-o-huno-m11818

A partir do início do século V, o Império Romano começou a fragmentar-se, uma vez que o elevado número de migrações dos povos germânicos era superior à capacidade do império em assimilar os migrantes. Embora o exército romano fosse eficaz a repelir os invasores, o império tinha assimilado de tal forma povos germânicos com lealdade duvidosa a Roma que o império se começou a desmembrar a partir de si próprio. A maior parte dos historiadores data a Queda do Império Romano do Ocidente em 476, ano em que Rômulo Augusto (reinado de 475–476) foi deposto pelo líder ostrogodo Odoacro (reinado de 476–493). 

No entanto, em vez de assumir para si o título de imperador, Odoacro submeteu-se ao domínio do Império Romano do Oriente, terminando assim a linha de imperadores ocidentais. Ao longo do século seguinte, o império oriental, conhecido atualmente como Império Bizantino, foi perdendo progressivamente o domínio da parte ocidental. O Império Bizantino terminou em 1453, com a morte de Constantino XI (r. 1449–1453) e a conquista de Constantinopla pelo Império Otomano.

Para ajudar no seu estudo, aqui no blog há uma Lista de filmes sobre Roma
Se quiser, também há uma lista de Vídeos sobre Roma Antiga

Sobre cultura romana, escreveremos outro artigo