sábado, 24 de abril de 2010

QUETZALCÓATL: HOMEM, SANTO OU DIVINDADE?

Quetzalcoatl. Pintura de Dan Staten


A cultura asteca, sua história, sua sociedade, sua produção artística estão intimamente ligadas às suas crenças religiosas. Essa religião é, principalmente, animista e dualista, na qual magia e cosmogonia fundem-se em um único elemento. Segundo Soustelle, os Astecas são os indígenas mais religiosos do México. Sua religião simples e dualista, quase que totalmente astral – ao menos em sua origem – foi enriquecendo-se ao longo do tempo através dos contatos com os povos sedentários do Centro. Conforme seu império foi se expandindo foi se incorporando novos elementos religiosos. Tanto que por volta do século XVI, sua religião era um denso conjunto de crenças e cultos de origens distintas.

A característica marcante da escatologia asteca é o seu caráter fatalista, onde não há vestígios de esperança. O caráter dualista domina o mundo espiritual asteca, estando presente nas forças da natureza e no panteão. Os deuses foram criados pela união dos princípios masculino e feminino: “os membros do casal supremo, Senhor e Senhora da Dualidade”[1]. Segundo Lehmann, a religião exercia um domínio total na vida dos astecas e absorvia grande parte de sua força. Os deuses comandavam tanto o Estado como o indivíduo. Todos os acontecimentos da vida, o dia do nascimento e o da morte, o bom ou mau destino, tudo fazia parte dos desígnios divinos. O princípio duplo inexoravelmente se manifesta também na formação dos deuses, e na formação da humanidade: “se llega a concebir que todo cuanto existe obedece a la acción de dos principios antagonicos que lucha eternamente (dualismo). Sólo así se explica la lucha entre el mal y el bien". [2]

A maior dificuldade em se estudar a religião asteca e seu panteão (sua mitologia) está no caráter mágico dela, que se deve à visão dualista do mundo. Os astecas, ao assimilar outros povos, assimilavam também suas divindades e seus cultos. Todavia essa incorporação de novas divindades era organizada pela classe sacerdotal que buscava reduzir a quantidade de divindades considerando cada deus como multifacetado.

Essa multiplicidade de deuses de diversas origens e diferentes atributos é visível quando se tenta ordena-los. Cada divindade asteca podia sofrer diversas manifestações e apresentar-se com diferentes atribuições. É o exemplo de Quetzalcóatl, um dos deuses mais importantes. Sua origem é tolteca, porém há manifestações suas por toda a América Latina. Para os astecas ele é o deus do vento, da vida, da manhã, do planeta Vênus, dos gêmeos, dos monstros, patrono das artes e da sabedoria, criador e pai dos homens. Seus nomes são: Quetzalcóatl, Ehécatl, Tlahuizcalpantecuhtli, Ce Ácatl, Xólotl, entre outros.


O nome Quetzalcóatl significa literalmente “serpente de plumas”, porém quetzal é também o símbolo de “coisa preciosa”, e cóatl significa gêmeo. Portanto o nome Quetzal-cóatl pode ser traduzido como “gêmeo precioso”, indicando sua atribuição de estrela matutina e vespertina. Esta identificação com o planeta Vênus deu origem a diversos mitos e explica quase todas as lendas de Quetzalcóatl.

Dentre os mitos envolvendo esse deus o mais importante é o da criação do homem. O mundo para os astecas, foi criado varias vezes. Isso porque a criação era seguida pela destruição por cataclismos. A última vez que o homem foi criado o deus Quetzalcóatl foi ao mundo dos mortos recolher os ossos dos homens, verteu sobre eles seu próprio sangue e deu vida novamente aos homens. Essa lenda explica a importância dos rituais de sacrifício humano e o papel fundamental que o sangue exerce nessa religião. Os homens, para manter-se vivos precisam manter vivos os deuses, alimentando-os com sangue humano. Apesar dessa lenda que justifica o sacrifício humano estar ligada diretamente à Quetzalcóatl consta que ele, durante seu governo sobre o mundo, proibiu essa prática.

Quetzalcóatl foi, sem dúvida, o mito mais difundido por toda a Meso-América. Com caráter multiforme, porém sempre benigno. Esse aspecto valente, bom, de herói integrador seria muito bem aproveitado pelos evangelistas espanhóis no momento de “garimpar” almas para a religião cristã. Do mito de Quetzalcóatl há varias versões, entretanto nenhuma delas sobreviveu à conquista espanhola de 1519 sob a forma escrita. Os pontos em comum na grande maioria das versões é o fato de que Quetzalcóatl, após criar os homens, desceu das efemérides divinas e encarnou como homem, veio para ensinar à humanidade todas as artes, a sabedoria e a bondade.

O homem Quetzalcóatl foi um rei tolteca muito justo, sacerdote, astrônomo, foi quem adaptou o calendário maia em algumas partes e estruturou o calendário tolteca, assimilado mais tarde pelos astecas. Seu reinado marca a assimilação do povo maia pelos toltecas. Teria morrido em 5 de abril de 1208, exilado em algumas versões, traído e morto em outras. Independente da versão de sua morte e das condições que esta ocorreu o certo é que ao deixar o trono tolteca Quetzalcóatl afirmou que retornaria. Assim ele se converteu no centro de uma cosmologia religiosa. Esta história mitológica chega, na forma de tradição oral, aos ouvidos dos conquistadores espanhóis que rapidamente vão interpretá-la e aproveitar-se dela.


Quetzalcoatl tatoo design. Excerpts from the Tattoo Encyclopedia: A Guide to Choosing Your Tattoo

by Terisa Green and Greg James


Um dos escritores que percebeu o caráter “messiânico” da lenda de Quetzalcóatl foi Bernardino de Sahagún. No primeiro livro de sua Historia general de las cosas de Nueva España ele tenta recuperar a figura de Quetzalcóatl assimilando-a a Jesus Cristo. A intenção de Sahagún foi explicar a outros missionários a concepção de mundo dos mexicas, para com isso poder afirmar o cristianismo e melhor evangelizar. Notória é a visão tendenciosa que Sahagún passa em sua obra, nesta assimilação da figura do deus tolteca existe um interesse ideológico deformador. Por outro lado, a aristocracia mexica pós-conquista também possuía o peremptório desejo de reabilitar Quetzalcóatl, como uma figura quase cristã, pois isso legitimava seu poder e a conseqüente manutenção deste.

Quetzalcoatl, desenho de Adam Fu Reed.


Sahagún não define o retorno de Quetzalcóatl como sendo uma profecia da chegada dos espanhóis, embora perpasse a idéia de que os espanhóis são companheiros do deus. Outros escritores vão além, é o exemplo de Las Casas que sugere que os cristãos são filhos e irmãos de Quetzalcóatl. Desta maneira tentou-se converter Quetzalcóatl em um apóstolo de Cristo para poder cristianizar mais facilmente. Como Paz salienta: a mentalidade européia viu-se confrontada pelas impenetráveis civilizações da América.

A partir de meados do século XVI foram feitas diversas tentativas para suprimir as diferenças entre mexicas e espanhóis. Alguns alegavam serem os antigos mexicanos descendentes de uma tribo perdida de Israel; outros os consideravam como sendo de origem fenícia ou cartaginesa; outros ainda estabeleciam relações entre certos ritos dos astecas semelhantes a cerimônias cristãs, imaginando que aqueles fossem um eco distorcido da pregação do evangelista São Tomé. Essa corrente defendia que o evangelista teria vindo para as Américas e adotado o nome de Quetzalcóatl [3].

A crença em uma evangelização realizada muito antes da chagada dos espanhóis no Novo Mundo, realizada por São Tomé, resulta da leitura de São Paulo que afirma que a palavra de Cristo foi levada até os confins da terra, pelos apóstolos. Atualmente sabemos da existência de correntes marítimas ligando a costa oeste da África às laterais leste da América, todavia o pensamento quinhentista desconhecia esse fato. Lafaye informa que a descoberta de textos bíblicos e de fatos novos permeados de crenças antigas seriam argumento suficiente para corroborar a idéia de que Quetzalcóatl foi o apóstolo São Tomé.

"Aztec and Maya Myths." Karl Taube. University of Texas Press. ©1993


Mesmo entre os índios houve confusão a respeito da similitude dos espanhóis com o mito do regresso de Quetzalcóatl. A lenda rezava que Quetzalcóatl regressaria de seu exílio e novamente instauraria a idade de ouro. Esta profecia possuía um caráter cronológico. O deus deveria retornar em um ano 1 acatl, coincidentemente os espanhóis aportaram no México em um ano 1 acatl, o ano de 1519. O próprio Hernán Cortéz foi confundido com o deus. Porém essa crença não logrou. O rei Montezuma mandou levar até Cortés os ornamentos sagrados de Quetzalcóatl com a finalidade de verificar a identidade do deus, o que não ocorreu.

Mesmo que ainda restassem dúvidas a respeito da identificação de Cortés com o deus, o massacre efetivado pelas tropas espanholas em Cholula, cidade sagrada de Quetzalcóatl, bastaria para dissipar quaisquer equívocos. Lafaye demonstra que a profecia de Quetzalcóatl “aparece como un caso particular, para México, de una crencia común a la mayoría de las poblaciones indígenas, según la cual unos superhombres vendrían del este para dominarlos” [4] é certo que os espanhóis foram posteriormente considerados filhos do Sol, companheiros de Quetzalcóatl, este foi um estratagema político para facilitar a penetração do continente, mas serviu também como fonte de inspiração para os missionários criarem uma brecha para a evangelização.

Quetzalcoatl, escultura asteca.


Se São Tomé esteve na Meso-América pregando a “boa-nova”, ou se algum outro europeu esteve em terras mexicas em alguma era pré-colombiana, são conjecturas que até o momento não se podem provar. O fato é que os povos do México possuíam uma religião bastante complexa e dentre seu panteão destaca-se a importante figura de Quetzalcóatl. Esse deus foi criador da humanidade, professor dos homens, foi deus e rei encarnado. Sua morte causou tristeza em seu povo, a ponto de se construir uma profecia de seu retorno. Como todo herói “messiânico”, indícios de sua volta não faltaram. Como se não bastasse a superstição do povo, os invasores chegam sob a auspiciosa data profética.

Os evangelizadores espanhóis tinham consciência de seu papel de divulgadores da “verdade” cristã e lançaram mão dos meios que lhes foram apresentados. Legitimar sua presença em solo mexicano através de um mito cosmogônico foi um meio para alcançar a mentalidade desse povo a ser conquistado e catequizado.


[1] SOUSTELLE, Jacques. A Civilização Asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987, p.68.

[2] CASO, Alfonso. El pueblo del Sol. México: Fondo de Cultura Economica, 1962, p.14.

[3] Cf. PAZ, Octavio. Essays on Mexican Art. New York: Harcourt Brace & Company, 1993.

[4] LAFAYE, Jacques. Quetzalcoatl y Guadalupe : la formacion de la conciencia nacional en Mexico. Mexico: Fondo de Cultura Economica, 1985, p.227.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


CASO, Alfonso. El pueblo del Sol. México: Fondo de Cultura Economica, 1962.

COLLIER, John. Los Indios de Las Americas. México: Fondo de Cultura Economica, 1960.

LAFAYE, Jacques. Quetzalcoatl y Guadalupe : la formacion de la conciencia nacional en Mexico. Mexico: Fondo de Cultura Economica, 1985.

LEHMANN, Henri. Las Culturas Precolombinas. Buenos Aires: EUDEBA, 1960.

PAZ, Octavio. Essays on Mexican Art. New York: Harcourt Brace & Company, 1993.

SAHAGÚN, Bernardino de. Historia general de las cosas de Nueva España. 4. ed. México: Porrúa, 1979.

SOUSTELLE, Jacques. A Civilização Asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.

SOUSTELLE, Jacques. La vida cotidiana de los aztecas en vísperas de la conquista. México: Fondo de Cultura Economica, 1956.


terça-feira, 6 de abril de 2010

As Guerras Médicas e a participação da cidade de Argos


Introdução

As Guerras Greco-Pérsicas foram uma busca pelo poder no Mediterrâneo Oriental, a busca de uma consolidação, de uma hegemonia de dois blocos antagônicos culturalmente: o grego e o persa. Esses dois grupos seriam a priori irreconciliáveis justamente por possuírem visões de mundo diametralmente opostas. Os gregos valorizavam o indivíduo e sua liberdade e os persas eram súditos de um monarca divinizado.

Porém percebemos que apesar de estas duas culturas serem divergentes entre si, os persas encontraram aliados em terras gregas. Em sua marcha de conquista sobre a Grécia, os persas conseguiram a rendição da terra e da água, e muitas cidades se firmaram como terreno neutro, não apoiando nem ao invasor bárbaro nem aos defensores da Hélade.

Esse mapa é fantástico. Gentilmente cedido pelo prf. Jomo. http://professorjomo.blogspot.com.br/2012_02_01_archive.html

Dentre essas cidades encontramos uma em especial que se uniu à causa persa contra seus compatriotas, a cidade de Argos.

Heródoto nos narra que ao se preparar para a invasão da Grécia o rei dos persas, Xerxes, mandou um arauto com uma mensagem amistosa, alegando serem os persas descendentes dos argivos e que em respeito ao culto a um antepassado comum eles não deveriam guerrear entre si. A cidade de Argos aceita essa aliança e em resposta aos enviados pelos helenos, que foram recrutar seu apoio, alegam a antipatia pela idéia de serem comandados pelos lacedemônios.

Portanto, Argos se alia aos persas devido a um precedente religioso, aí reside nossa hipótese, o quão forte é a religião a ponto de influenciar significativamente em uma decisão política?

Não vamos negar que Argos nesse momento era submetida à Esparta e que há sem dúvida o interesse de livrarem-se do jugo lacedemônios, porém o argumento feito por Xerxes foi de extrema importância.

Argos se apoia na religião ao dar ouvidos à proposta persa e ainda se apoia em uma preleção oracular contra o seu apoio aos helenos.

Portanto a religião na Grécia Clássica é considerada de crucial importância para a obtenção dos objetivos deste trabalho. Analisaremos a religião grega, sua influência na formação da mentalidade do homem grego nesse período e seu caráter, procurando os pontos que nos permitam identificar a nossa hipótese supracitada.


Heródoto, nosso autor


Heródoto, baixo-relevo, Louvre

Por volta de 484 a.C. na cidade jônica de Halicarnasso, Heródoto nasceu. Sua cidade situava-se na costa da Ásia Menor e neste período era dependente da província de Caria, integrante do Império Persa. Nesse momento as relações entre a Pérsia e as cidades gregas estavam em conflito. Os persas estavam se preparando para uma expedição militar à Grécia que levaria a última Guerra Greco-Pérsica que ocorreu em 480 a.C.
As Guerras Greco-Pérsicas, ou Médicas, tiveram seu fim no ano de 479 a.C. Na batalha de Platéia que foi vencida pelos gregos comandados pelo espartano Pausânias. O encerramento dos conflitos entre gregos e persas marcou a história desta civilização. Os gregos tinham consciência de que o resultado dos conflitos seria de extrema importância não só para o mundo grego e que se a Pérsia fosse vitoriosa isso poria fim na independência das poleis gregas e , talvez da própria civilização helênica.
Por isso que muitos historiadores consideram as Guerras Médicas como um marco na transição da civilização grega arcaica para a clássica propriamente dita. Após as Guerras Médicas a Grécia se encontra dividida, suas inúmeras cidades estavam extremamente orgulhosas de sua autonomia e de sua independência política, orgulho esse que seria mais tarde o fermento da guerra fratricida conhecida como a Guerra do Peloponeso.
Foi inserido nesse espírito de liberdade e autonomia que Heródoto cresceu, sendo membro de uma influente família de Halicarnasso, desde cedo se envolve na vida pública. Sua família se opunha ao tirano Lígdamis e seu tio Paníasis, como chefe da oposição, lidera uma sublevação fracassada. Isso vai custar à Heródoto um exílio, porém isso é um fato que trouxe benefícios, pois é aí que Heródoto inicia suas viagens que darão origem a sua obra e o levarão ao Egito, ao norte da África, à Itália, ao Mar Negro, a Ásia Menor e ao Oriente Médio.
Entretanto de todas as viagens de Heródoto a que teve maior repercussão foi a que o levou a Atenas. A vida cultural desta polis no século V a.C. Era de uma efervescência inédita na história do mundo antigo. Todas as artes tiveram florescimento e a filosofia estava sofrendo mudanças que marcariam toda história da humanidade. Grandes artistas e intelectuais de todas as partes do mundo grego iam para Atenas em busca de reconhecimento.
Mas devemos lembrar que esse crescimento não ocorreu de forma homogênea e boa parte do progresso cultural concentrava-se na cidade de Atenas. Foi lá que Heródoto alcançou notoriedade através da leitura pública de sua obra. Além disso foi em Atenas que Heródoto conviveu com grandes políticos, militares importantes, artistas e filósofos, tendo contato inclusive com os sofistas. Porém esse contato não seria o suficiente para alterar significativamente o conteúdo da “História” pois no momento que Heródoto entrou em contato com a filosofia sofista sua obra estava quase que totalmente escrita.
Todavia, esse apogeu cultural possui um caráter passageiro por que já no início do século IV a.C. a civilização grega entra num período inerte. As destruidoras guerras do século V continua sua marcha. As cidades enfraquecidas pelos constantes conflitos dão margem para a conquista macedônia que ocorreu em 338 a.C. Porém Heródoto não presencia esses fatos, ele falece em 425 a.C. na polis de Turói, cidade do Golfo de Taranto, a qual ele ajudou a fundar e se tornou cidadão.

Contextualização espaço temporal

Nossa história tem como personagens o rei persa Xerxes e a cidade de Argos:


· Xerxes: seu nome do antigo persa Khshayarsha, na Bíblia Ahasuerus. Filho e sucessor de Dario I. Ao suceder seu pai precisou enfrentar sublevações em algumas cidades persas, em domínios no Egito e principalmente nas cidades jônicas. Estas cidades receberam auxílio da Hélade e ao triunfar sobre essas revoltas Xerxes preparou-se para a vindita contra os gregos.
Para tal buscou apoio nas disputas internas da própria Grécia. Entrou com pedido de terra e água a algumas poleis e enviou arautos propondo alianças a outras como no caso de Argos.


Xerxes, baixo relevo, Irã
· Argos: cidade que está localizada a nordeste da península do Peloponeso, a 4,38 km dentro do Golfo de Argos. Já foi a principal cidade da região a qual era chamada de Argolis. O nome Argolis foi restrito à planície ao redor da cidade de Argos. Após as disputas pela hegemonia da região, Argos foi submetida à Esparta. Na época da invasão persa à Grécia, Argos viu uma boa oportunidade de se livrar do jugo de Esparta, voltando a ter a hegemonia do Peloponeso.
Atlas HIstórico


Análise da Fonte

Da “História” de Heródoto o trecho a que nos propomos a estudar é o parágrafo 150 do livro VII:

São essas as palavras dos próprios argivos a esse respeito, mas há outra versão difundida entre os helenos. Segundo essa versão Xerxes, antes de iniciar a expedição contra os helenos, teria enviado um arauto a Argos; conta-se que chegando lá ele teria dito o seguinte: “O rei Xerxes vos diz essas palavras, argivos: “Pensamos que descendemos de Perses, filho de Perseus filho de Danae, e de Andromeda filha de Cefeus; sendo assim, descenderíamos de vós. Não seria portanto razoável nem que nós entrássemos em guerra contra nossos antepassados, nem que vós, levando ajuda a outrem, passásseis a ser nossos inimigos; o razoável é que vós permaneçais quietos em vossas casas, pois se tudo se passar de acordo com meus desejos não haverá povo mais estimado por mim do que vós.” Segundo se conta, depois de ouvir essas palavras os argivos ficaram muito impressionados; naquele momento eles não ofereceram qualquer assistência, nem apresentaram reivindicação alguma por seu turno; mas depois, quando os helenos tentaram obter o seu apoio, sabendo perfeitamente que os lacedemônios não concordariam com a partilha do comando eles pleitearam a sua participação no mesmo, com o objetivo de ter um pretexto para ficar quietos. (HERÓDOTO p.381)

Perseu e Andrômeda, óleo de Paolo Veronese
Além do argumento utilizado por Xerxes, baseando-se no culto ao antepassado comum, Heródoto nos dá uma outra versão para a aliança de Argos com o persas, uma preleção oracular que avisava os argivos contra os perigos de se aliarem aos helenos. O que fica evidente no parágrafo 148:
...Passou-se o seguinte entre eles segundo dizem os próprios argivos: estes teriam obtido informações desde o princípio quanto aos planos dos bárbaros contra a Hélade; cientes disso e no pressuposto de que os helenos tentariam coligar-se contra o persa, eles teriam enviado teoros a Delfos para perguntar ao deus qual seria a melhor atitude a tomar. Com efeito, pouco antes os argivos tinham perdido seis mil homens lutando contra os lacedemônios e seu comandante Cleomenes filho de Anaxandrides, e por isso estavam mandando os teoros. Em resposta a sua pergunta a Pítia lhes teria dado o seguinte oráculo:

Povo odiado por todos os seus vizinhos,
mas caro aos deuses imortais, mantém-te em guarda
lá dentro das muralhas, empunhando a lança
e cuida da cabeça; ela te salvará.”
Esse oráculo já lhes tinha sido dado pela Pítia anteriormente ...

(HERÓDOTO p.380-381)

Portanto seja a verdade dos fatos uma aliança proposta pelo rei persa ou um aviso oracular, a decisão da cidade de Argos foi a de se aliar a Xerxes, decisão política, sem dúvida, porém respaldada pela religião.

O mito de Perseu

A mitologia nos conta que um antigo rei da cidade de Argos, Acrisius prendeu sua filha Danae numa masmorra com receio que ela engravidasse, pois segundo um oráculo seu neto vindouro seria o autor de sua morte.

Zeus, o deus maior, compadeceu-se da moça e apaixonou-se por ela, caindo em forma de chuva por entre as grades da masmorra engravidou-a. desta união nasceu Perseu. Enfurecido o rei Acrisius aprisiona mãe e filho em um baú e lança-os ao mar. Dias depois aportam numa ilha distante e são libertos e acolhidos pelos reis locais, Dictys e Polidectes, que eram irmãos. Alguns anos mais tarde, a pretexto de ver-se livre de Perseus para assim não haver objeção ao seu casamento com Danae, Polidectes propõe um desafio a Perseus: trazer a cabeça da gorgone Medusa.


Perseu com a cabeça da Medusa, cidade de Firenze, Itália.

Perseus teve sucesso em sua investida tanto que voltou casado com Andromeda, salva por ele de um sacrifício ao deus do mar, Possêidon. Desta união nasceu Perses que iria dar origem ao povo persa.

Análise Bibliográfica

Quando falamos nas crenças gregos existe um grande risco de confundirmos a religião e a mitologia. A religião para os gregos da Antigüidade está na manutenção dos seus objetos de fé, seus ritos e cerimônia sacralizadas. A mitologia faz parte desta religião mas de maneira secundária, segundo Robert o mito surge freqüentemente mas sempre como um subterfúgio que explica o ritual e o torna sagrado. “A religião não está no que se conta, mas no que se faz.”(Robert p.6) ou seja a verdadeira religião grega está em seus cultos, ritos e cerimônias e não nas suas lendas.


Então qual a importância do mito de Perseu para os argivos do século V a.C.? E qual seria a relação entre esses e os persas?

O herói Perseu, neto de rei de Argos e seu filho Perses deu origem ao povo persa, portanto o rei Acrisius é um antepassado comum tanto para os argivos como para os persas. Essa lenda é considerada como uma realidade, como algo que realmente aconteceu, sendo assim uma realidade sagrada.

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo de tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois os personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhes fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou seres divinos fizeram no começo do tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez “dito” quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodíctica: funda a verdade absoluta. (Eliade p.84)
Coulanges ainda nos acrescenta que entre os antigos havia a crença do antepassado como um ser gerador que fornecia o mistério da criação. “O gerador surgia-lhes como ente divino e por isso o adoravam no seu antepassado.” (p.40)
Esse sentimento era extremamente forte e surgiu como base para a religião. Lembramos também que o povo grego possui em sua formação tribos indo-européias fica então simples destacar a importância deste culto aos antepassados, culto que tem sua origem no seio familiar e que alastrou até alcançar um caráter de culto citadino, oficial da polis
Portanto a religião era o que permeava a vida do homem antigo. Todos os seus atos na vida pública ou privada, era determinado por suas crenças. O Estado também era submetido a religião, tanto que era difícil distinguir um do outro e nunca se ouviu falar de conflitos entre ambos. Ocorria exatamente o contrário, temos exemplos de governantes apoiando seus cargos políticos sustentados pela religiosidade do povo.

Temos aqui o claro exemplo dos oráculos que intercediam favorável ou desfavoravelmente sobre alguma lei ou argumento político. Intervinha na constituição de novas colônias, no estabelecimento de pactos políticos e da alianças econômicas. A crença no oráculos era tão forte que eles eram aceitos como verdades absolutas. Pensadores modernos nos alertam para a sua tendenciosidade, colocando as manifestações oraculares como passíveis de serem compradas por aqueles que tivessem interesse em uma preleção favorável. Não vamos aqui discutir a veracidade dos oráculos mas vamos salientar que os governantes se utilizaram desta artifício para fazer valer suas decisões. A opinião de Robert corrobora nossa idéia quanto a isso e ainda acrescenta que todo homem de Estado se apoiava as traduções das Pítias para sacralizar sua política.

Pitonisa, cena do filme 300, de Zack Snyder (2007)

Além dos oráculos havia uma série de ritos, cerimônias, festas de conotação religiosa, enfim uma série de atividades sacralizadas que constituíam a religião em si. Esta religião não propunha ao homem uma reflexão ou ainda interrogações sobre os seus deuses. Ao contrário, sujeitava-o a um incrível número de minuciosas cerimonias e ritos, práticas preestabelecidas pelos antepassados de seus antepassados e que eram obrigatórias.

“A religião que exercia uma tão grande influência na vida da interior da cidade, intervinha com igual autoridade em todas as relações que as cidades mantinham entre si. É quanto podemos verificar ao estudarmos como os homens destes antigos tempos faziam a guerra entre si, concluíam a paz ou firmavam alianças.” (Coulanges p.254)

A religião presidia tanto a guerra quanto a paz, permeando as relações internacionais, marcadas por cerimônias sagradas e invocações dos deuses. Em caso de guerra, uma decretação se fazia mediante o pronunciamento pelo sacerdote, de certa forma sacramental.

Conclusão

A sociedade grega do século V a.C. possuía enorme influência religiosa, tanto em seu cotidiano como em suas instituições. Nossa hipótese se baseou na força de religião para o homem grego, o quão forte seria a religião a ponto de interferir em uma decisão política.

Partimos da premissa de que o cunho religioso estava tão incutido na mentalidade grega que seu espectro é percebido em todas as áreas de atuação humana. Estava presente na arte, na filosofia, na literatura, nos jogos, nos intercâmbios mercantis e na vida política.

Podemos concluir , então, que embora a cidade de Argos pudesse ter outros motivos para se aliar aos persas foi realmente o argumento religioso que embasou sua decisão final.

Referência Bibliográficas

Fonte:
1. HERÓDOTO. História. Brasília: Universidade de Brasília, 1988.

Bibliografia Consultada:1. BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega.Vol.3. Petrópolis: Vozes, 1998.
2. COULANGES, Fustel de. A Cidade Antiga. Porto: Imprensa Portuguesa, 1971.
3. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
4. GASSER-COSE, Françoise. A Grécia do Partenon. Rio de Janeiro: Ferni, 1978.
5. GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega. São Paulo: Difusão Editorial, 1980.
6. ROBERT, Fernand. A Religião Grega. Coleção Universidade Hoje. São Paulo: Martins Fontes, 1981.
7. SCHWAB, Gustav. Dioses y Heroes. Mitos u Épica de la Antigua Grecia. Trad.esp. URRIZA, José Goñi. Buenos Aires: Santiago Rueda, 1949.